Embaixador do Reino Unido em duas rodas

22.09.2008, Inês Sequeira in Jornal «Público» de 22.9.08

«Alexander Ellis, embaixador do Reino Unido em Portugal, gosta de andar sempre vestido de acordo com as ocasiões. E quando o objectivo é um percurso de bicicleta entre casa e o local de trabalho, algo que faz algumas vezes por semana, isso inclui um capacete para prevenir possíveis quedas, calções pretos e ténis, uma t-shirt e uma pequena mochila às costas. A gravata, tal como o fato, serão vestidos depois de um duche rápido já na embaixada, ou então trocados no final da tarde.

Mas tendo em conta que se trata de um representante de Sua Majestade, o traje para andar de "bicla" abarca também um segurança pessoal equipado a rigor para o exercício, com a bicicleta e óculos escuros a protegerem a identidade de olhares mais indiscretos - para quem felizmente essas viagens "não são sacrifício nenhum", até porque pratica BTT.
Nunca em dias certos nem com percursos exactos por razões de segurança, Alexander Ellis faz questão de pegar nas duas rodas e utilizá-las como meio de transporte, em vez de se enfiar dentro de uma viatura mais rápida, discreta e que, aparentemente, seria bem mais confortável. E ainda para mais não se trata de um caminho plano, nem são poucos os quilómetros: a residência do embaixador situa-se ali para os lados da beira-rio, próxima da zona de Alcântara e do edifício da antiga FIL (que é agora o Centro de Congressos de Lisboa); a embaixada fica ainda distante e bem mais acima, próxima do Jardim da Estrela e do Largo do Rato - aquilo que o embaixador traduz numa ginástica de "20 minutos a meia-hora", mas isso deve ser para quem pedala bem e nunca pára nas subidas.
Numa cidade de "muitas colinas", confessa que se sente "quase sozinho" nestes exercícios matinais e de fim de tarde e que se tem esforçado para "manter o hábito" que trouxe já de Londres e de Bruxelas, cidades onde trabalhou durante os últimos anos, antes de regressar a Lisboa para assumir o cargo de embaixador em 2007.
Admite que em Londres existe mais facilidade em dar uso aos pedais, mas apenas porque "é plano", enquanto a capital portuguesa é "mais cansativa". Mas foge a comentar se sente falta de outras medidas de apoio aos ciclistas por parte da autarquia; lança apenas um sorriso, como quem diz que é necessária ainda paciência, pois estes hábitos na cidade "estão ainda a começar".
Quanto a acidentes ou "encostos", "nada" a registar até hoje, o que contraria as más-línguas que acusam os automobilistas portugueses de se darem mal com quem prefere as duas rodas. É claro que o clima entre os dois lados nem sempre é totalmente pacífico, assume: "De vez em quando recebo o apoio (verbal e de forma irónica, entenda-se) dos condutores das motas e dos taxistas; mas deve ser porque não estão habituados."
O embaixador recebe por vezes o "apoio" verbal dos condutores das motas e dos taxistas, mas nunca foi vítima de "encostos"»