Cidades europeias: Bicicletas e automóveis partilhados já circulam...

Cidades europeias com transportes alternativos

Bicicletas e automóveis partilhados já circulam... in:http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=29406&op=all

:: 2009-02-07 Por Marlene Moura

Em Amesterdão, todos «roubaram» bicicletas
Em Amesterdão, todos «roubaram» bicicletas
Combater o abusivo preço dos combustíveis, diminuir trânsito lento, arranjar uma alternativa ecológica e fomentar a prática de exercício físico foi o que o Vélib – bicicleta de aluguer – trouxe de novo aos parisienses.

O antigo presidente da câmara de Londres já tinha anunciado que os londrinos também terão acesso ao sistema a partir de 2010. Paris e Lisboa já seguem com o automóvel partilhado este ano.

Face ao autêntico dislate nos preços dos combustíveis, diferentes cidades europeias têm optado por transportes alternativos e Portugal não é excepção. Para aguentar e racionalizar consumos, pega-se numa bicicleta numa estação e deixa-se noutra mais perto do destino: esta é uma medida que os parisienses já adoptaram desde 15 de Julho de 2007.



Em Portugal, os aveirenses já se tinham adiantado com a BUGA (Bicicleta de Utilização Gratuita de Aveiro) em 2001 e a cidade foi até comparada com Amesterdão – onde mais de 400 mil veículos a pedais circulam pelas principais ruas da cidade.

Para levantá-las basta inserir uma moeda na ranhura e pode-se andar o tempo que se quiser. No final, devolve-se ao posto e ao introduzir o cadeado recupera-se o dinheiro, como no carrinho de compras. Existem 30 parques BUGA espalhados pela cidade. Agora, em Braga, também se decidiu optar por este meio de transporte (o nome dado é BUTE) e os principais adeptos são alunos e professores da Universidade do Minho.

«Provos» e bicicletas brancas

Em Amesterdão, a iniciativa começou com o grupo «Provos». Este movimento de contra-cultura foi iniciado por Robert Grootveld, por volta de Maio de 1966. Tinha um pai anarquista e cresceu a ouvir os seus ideais e, já adulto, fazia apresentações com fogo e discursos de rua.

Grootveld, considerado uma as pessoas mais exóticas da cidade, fumava desde adolescente e quando em adulto sofreu as consequências do seu vício, com graves infecções no pulmão, iniciou uma campanha antitabagista na cidade, colocando um “K” (de Kanker em neerlandês, Cancro em português) em todos os cartazes de cigarros, foi preso inúmeras vezes mas sempre solto.

Durante mais um ataque à indústria do cigarro, fundou a Igreja do «Kof-kof», onde os fiéis cantavam hinos como o interminável “kof-kof-kof-kof-kof-kof” (som produzido pelos fumadores). Os «Provos» criaram um pequeno jornal – o «Zine Provos» –, que tinha como objectivo explicar as intervenções urbanas e promoverem os seus ideais.

Vélib (Foto de Dominique Lagache)
Vélib (Foto de Dominique Lagache)

O grupo lançou ainda o plano “das bicicletas brancas”: pintaram-nas totalmente dessa cor e colocaram-nas na rua explicando que não teriam donos e quem as encontrasse poderia usá-las e depois deixá-las para outras pessoas. Os «Provos» reuniram-se na praça Lieverdje e propuseram a noite das bicicletas brancas, chamando a população da cidade para pintar os seus velocípedes. No dia seguinte ,a polícia tentou por em prática a lei da propriedade privada, prendeu pessoas que alegadamente "roubavam" bicicletas, mas existiam tantas que a troca daquele meio de transporte ficou comum.

Depois deste plano ter dado certo, outros foram criados como: o das chaminés brancas (poluição), o das mulheres brancas (respeito pelas mulheres), bicicletas brancas (poluição dos carros) e outros. O termo branco não significava racismo, mas sim, a extinção da poluição visual, auditiva e florestal que aumentava com o crescimento da cidade.

Preços abusivos

A moda está a pegar e é uma das alternativas encontradas para fugir à escalada dos preços praticados pelas gasolineiras. Embora, viessem a diminuir no final de 2008, este ano já regressaram com algumas subidas.

Recorde-se que o litro da gasolina 95 octanas chegou a custar 1,49 euros e a sem chumbo 98, 1,63 euros, já o gasóleo chegou aos 1,42 euros (com um aumento de 4 cêntimos em dias) para grande aflição dos portugueses, em 2008.

A Galp e a Repsol chegaram a ter o 21º acréscimo consecutivo. Apesar da medida ser reclama por diversos sectores, o executivo de Sócrates afastou por diversas vezes uma descida do imposto cobrado sobre produtos petrolíferos.

Segundo o presidente da Autoridade da Concorrência (AdC), Manuel Sebastião, "os preços dos combustíveis, em Portugal, demoram cerca de um mês a reflectir as variações nas cotações do petróleo no mercado IPE londrino, onde é negociado o Brent, petróleo de referência para as importações nacionais".

Associativismo

O sistema, federado por uma rede de auto-partilha, que existe desde o ano 2000 em diferentes cidades francesas, foi criado por um movimento de cidadãos ecológicos. Funcionava sob forma de associativismo por volta de 2003.

Considerou-se inicialmente que a medida dificilmente atrairia adeptos na capital francesa, mas os parisienses não se fizeram de rogados para abandonar o seu carro em detrimento do pedal e Paris conta já com quase 1500 estações de bicicletas que têm 300 metros entre elas. Estas são bastantes pesadas (entre 10 e 15 quilos) e são dotadas de um emissor; levantam-se em qualquer posto e para o efeito é necessário introduzir o cartão de crédito, mas se a ida não for superior a meia hora, a pedalagem é gratuita.

A sugestão é mudar de meia em meia hora e não haverá qualquer débito. Já fazem parte da rede de transportes públicos da metrópole e, por isso, também é possível levantá-las com o passe magnético (carte Navigo) e também gratuitamente, se dentro do prazo. Funciona 24 horas por dia e sete dias por semana.

Automóvel partilhado

Vista panorâmica sobre Paris (Foto: Dominique Lagache)
Vista panorâmica sobre Paris (Foto: Dominique Lagache)

Outra alternativa encontrada para poupar o meio ambiente e abrandar o tráfego é o automóvel partilhado e de baixo consumo (híbridos). A Carris já desenvolveu o projecto que entrou em fase experimental a partir de Setembro de 2008, em Lisboa. O serviço é conhecido por “car sharing” e pretende-se que um cidadão o possa usar entre dois pontos da capital e que quando terminar a viagem e estacionar, o carro possa ser utilizado por outra pessoa.

Segundo um estudo, este programa permite substituir entre quatro a dez viaturas particulares. Mas, para ter acesso ao meio transporte, o utente terá primeiro que se registar na Internet. As tarifas dependerão da distância percorrida e do tempo.

Este projecto também está para breve em Paris, com o nome de Autolib – para rimar com Vélib. A cidade francesa pioneira será – tal como o foi com a bicicleta de aluguer em 2005 – Lyon, com 70 veículos já previstos para este ano.

Este sistema visa apenas os cidadãos que precisem de um carro ocasionalmente uma ou duas vezes por semana – e que não têm a possibilidade de comprar um –, pois já é mais dispendioso. Bertrand Delanöe, presidente da Câmara de Paris, anunciou um objectivo de dois mil veículos para começar.

Os inscritos (a partir de 12,60 euros por mês) podem reservar o seu automóvel por Internet ou telefone e podem escolher entre um pequeno citadino, utilitário ou monovolume. Pagam posteriormente à hora e ao quilómetro. As facturas podem ser de dez euros para uma ida e volta ao supermercado, 50 euros para um passeio mais longo ou até 150 e 200 euros para um fim-de-semana. A manutenção e o seguro estão incluídos e são de baixo consumo e de emissão de dióxido de carbono. Mas, ao contrário da bicicleta, o carro terá de ser deixado no local de partida.

Trânsito caótico em Londres (Foto: Dominique Lagache)
Trânsito caótico em Londres (Foto: Dominique Lagache)

Desde o início do seu mandato que Delanöe tem vindo a apostar em medidas que promovam a diminuição do trânsito e tudo pelo ambiente. Começou com vias únicas para autocarros, seguiu com o eléctrico, o Vélib e agora aposta no automóvel partilhado.

Em Londres

Do outro lado do Canal da Mancha, o seu anterior homólogo inglês, Ken Livingstone (agora, Boris Johnson, eleito em Maio de 2008) – depois de ter acolhido a volta à França de bicicleta (2007) –, preparou a cidade com o sistema “pedalar pelo ambiente”. Após ter oficializado a decisão, o presidente londrino e a sua equipa já se deslocaram várias vezes a Paris para estudar o fenómeno. Previu a criação de uma estação de 300 em 300 metros, entre o West End e a City, com a circulação de seis mil bicicletas.

No entanto, o problema que se põe é o facto de existirem em Londres mais de oito milhões de habitantes (Paris tem 20 mil Vélibs para mais de dois milhões de habitantes intra-muros). Há quem defenda que deveriam ser mais as bicicletas, caso contrário corre-se o risco de haver muita gente impaciente para o “chá das cinco” nas estações.